segunda-feira, 14 de maio de 2012

Provocações a cerca da questão do mal no pensamento de Santo Agostinho de Hipona



A PERCEPÇÃO DO MAL NA VIDA DE AGOSTINHO

            Agostinho de Hipona percebe o mal ao longo de toda sua história de vida, por isso começa a se questionar sobre a sua causa e origem. Na obra “confissões”, ele retrata o caminho que realizou para encontrar o que lhe fazia ser livre, ou seja, o que o levava a realizar o bem.
            Como dito, Agostinho sempre percebeu a presença do mal em sua vida, desde a infância, quando relatou sobre seu desejo ardente de saborear os prazeres e também como vivia as dores da carne (sofrimento – que também é um mal): “nada mais fazia senão sugar os peitos, saborear os prazeres  e chorar as dores da minha carne” [1]. Deve-se destacar que Agostinho não tinha lembrança de seus primeiros anos de infância, mas observava as outras crianças (que praticavam os mesmos atos maus) e recebia relatos de seus familiares[2]. Agostinho, então conclui que as crianças também têm sua natureza corrompida, “a debilidade dos membros infantis é inocente, mas não a alma das crianças” [3].
            No período da adolescência existe, segundo Agostinho, além das tentações infantis[4], o apetite sexual e a transgressão. O pecado que mais marcou a adolescência de Agostinho foi o da luxúria, “os espinhos das paixões me sobejaram a cabeça, sem haver mão que os arrancasse”[5]. Além disso, foi na adolescência que Agostinho percebeu o prazer que o homem sentia pelo mal, ao narrar o episódio do furto das pêras:
“Eu quis roubar; não instigado pela necessidade, mas somente pela penúria, pelo fastio da justiça e pelo excesso de maldade [...] não pretendia desfrutar do fruto, mas do roubo em si  e do pecado.”[6]

Agostinho acreditava que o pecado era dirigir a vontade para as coisas inferiores – ressalta-se que as coisas inferiores (criaturas) são boas na participação no Sumo-bem (Deus), porém são boas em grau menor. O pecado é quando a pessoa se inclina para os bens menores ao invés de se inclinar para o bem em si, ou seja, Deus. Agostinho, ao narrar o episódio do roubo das pêras, afirma que a cumplicidade faz com que o ser humano peque ou o induz a pecar,
“ portanto, amei também no furto o consórcio, daqueles com quem o cometi. Amei, por isso, mais alguma coisa do que o furto, mas não, não mais nada, porque a cumplicidade nada vale.”[7]

                No momento de estudos em Cartago, Agostinho percebeu seu prazer pela dor e pela tragédia dos outros, mas os dois pontos que marcaram este momento da vida do bispo de Hipona foram a leitura do livro “Hortênsio”, de Cícero, e a adesão ao maniqueísmo. Agostinho foi seduzido pelos maniqueus porque esta doutrina buscava a origem do mal, tinha uma concepção de Deus e mostrava como os injustos (assassinos, homens cheios de mulheres... – citados no Antigo testamentos) seriam salvos. Os maniqueus respondiam a essas questões, dizendo que a origem do mal era o deus mal (eles acreditavam que havia duas origens das coisas, uma boa e outra má), que os seres divinos eram materiais e que o Antigo Testamento fora escrito pelo deus mal.
            Finalmente, Agostinho teve o contato com os neoplatônicos em Milão e com Ambrósio, os quais o fizeram descobrir o que era realmente o mal, e fizeram-no abandonar a doutrina maniqueísta.

O MAL
            Agostinho, depois de toda sua experiência de vida, encontra a resposta para o problema da origem do mal, graças aos neoplatônicos, especialmente Plotino que afirmava ser o mal ausência, falta de bem. Plotino, porém, identificava o mal com a matéria, e se Agostinho identificasse o mal com a matéria, ele seria obrigado a dizer que o mal é um bem, pois todas as coisas, enquanto existem, são boas[8].
            Agostinho também não poderia atribuir a origem do mal a Deus, pois Ele é Sumo-bem e criou todas as coisas boas. O Bispo de Hipona então chega ao homem, e conclui que o mal é causado pelos seres humanos, pois estes não são o bem pleno, como Deus o é[9]. O homem, ao se afastar de Deus e voltar-se para as criaturas, que são bens inferiores, causa o mal, pois se afasta do bem supremo,
“pela propensão imoderada para os bens inferiores, embora seja bons, se abandonam outros melhores e mais elevados, ou seja, a Vós, meu Deus, à vossa verdade e a vossa lei.”[10]
            Mas qual é a causa do mal no ser humano? Como ele se volta para os bens inferiores? Agostinho responderá que é pelo livre-arbítrio da vontade, “o livre-arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal”[11]. O ser humano está sempre buscando um bem, entretanto, sua vontade acaba procurando um bem que não é o bem em si, mas os bens que participam do bem supremo (Deus). Quando o ser humano se volta para o bem verdadeiro, ele será livre[12] e estará agindo bem.
            Portanto, o mal é a ausência de bem, ou seja, o mal é o não-ser  ou nada. Mas, Agostinho irá questionar-se a cerca dos três aspectos do mal, a saber: ontológico- metafísico, moral e físico.
O mal no nível ontológico-metafísico.
            Agostinho afirma que “o mal não é uma substância”[13], portanto o mal enquanto ser não existe, não é. O mal não pode ser uma substância, pois todas as substâncias são boas, porque foram criadas por Deus e Deus não criou e não pode criar nada que seja mal. O mal é quando há a privação do bem, ou seja, é o afastamento de Deus.
            O ser humano por causa de sua vontade, acabou deixando-se seduzir pelos  bens inferiores, decidindo assim a ir para o nada, a inclinar-se para o que não é. Ressalta-se que para Agostinho, todos os seres humanos são um bem em si, até mesmo inclinados para a corrupção, “Se não houvesse nada de bom nelas (coisas corrompidas), não haveria nada aí que pudesse corromper-se”[14].
            Portanto, o mal ontológico-metafísico é “um tirar fora, uma privação, uma tendência ao nada, antes que um locus inanis, uma bolsa de nada num mundo bom”[15].  Para Agostinho, mal é o não-ser, é nada, o mal é a privação do bem, é o não-bem. O mal não existe no cosmo, enquanto afirmação de ser.
O mal no nível moral
            O mal moral é
“uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, o Deus – e tendendo para as coisas baixas: a vontade que derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência.”[16] 
            O mal moral transforma as coisas relativas em absolutas e transforma o absoluto em relativo. Agostinho observa esse mal, desde o Gênesis, quando Adão quis ser poderoso comendo o fruto proibido, ele tentou se fazer absoluto, quis tornar-se um ser independente de Deus. Também Agostinho irá perceber o mal moral em sua vida, principalmente quando ele experimenta a morte de seu amigo:
“Era desgraçado, e desgraçada é toda alma presa pelo amor às coisas mortais. Despedaça-se quando as perde, então sente a miséria que a torna miserável, ainda antes de as perder.”[17]
O mal moral é fazer das criaturas, que são boas, a perfeição; tratá-las como a única coisa que o ser humano precisa. O ser humano é um ser dependente de Deus e não pode querer fugir desta condição: “criastes-nos para Vós e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós”[18]. Nenhum ser humano vive por si só, todos precisam de algo, porém, por ter o livre-arbítrio, ele pode decidir para onde deseja inclinar sua vontade. Quando ele se inclinar para as criaturas, acaba caindo no mal moral , pois poderá até então se satisfazer temporariamente nos bens passageiros, porém estes irão perecer e então o ser humano cairá no sofrimento.
            Conclui-se que o mal moral é a inclinação do ser humano para as criaturas, acontece quando o ser humano quer transformar os bens inferiores em bem superior:
“eu fixava a atenção naquelas que são contidas pelo espaço, sem aí encontrar um sítio para descansar. Nem elas me hospedavam de modo a poder dizer: ‘isto me basta; estou bem!’ Nem deixavam partir para onde me achasse satisfeito.”[19]
O mal moral se efetiva quando o ser humano anseia por algo que o dê satisfação e felicidade, porém procura estas coisas no lugar errado. É somente Cristo, que concede ao ser humano a sua Graça, que poderá livrá-lo de sua prisão das coisas materiais e fazer com que ele busque a verdadeira satisfação de seus anseios.
O mal no nível físico
            O mal físico é conseqüência do mal moral, ele é observado nas dores e na morte do ser humano. Além disso, pode-se constatá-los nos fenômenos naturais como terremotos e desastres. Agostinho não podia conceber essas coisas como coisas da vontade divina, por isso ele mostra que são conseqüências do pecado de Adão[20]. Para Agostinho,
“‘males naturais’ é uma questão de interesse muito subordinado. Ele não os atribuiria a Deus, mas ao homem. Para ele, não existe uma coisa como ‘o mal natural’.
Ele diz que as coisas são boas, porém o ser humano fez com que elas tomassem um aspecto mal. Além disso, a morte que para ele é o pior mal é conseqüência do pecado original, é “ uma sinal do efeito do mal sobre suas naturezas intrinsecamente boas.”[21]
            Assim sendo, o mal físico é conseqüência do pecado original, ou seja, pelo pecado o homem provocou todo o mal que há no mundo, desde o espiritual até o natural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
            Diante de tudo que foi dito, pode-se conclui dizendo que o mal é umas das questões que mais tem feito o ser humano se questionar. Ele sempre quis saber seu motivo, principalmente a origem do mal físico, que atinge até mesmo as pessoas que são consideradas boas. Santo Agostinho de Hipona se colocou as mesmas questões e se deixou levar por doutrinas que não apontavam para a verdadeira causa e a origem do mal (ex.: Maniqueus).
            Porém, Agostinho sendo o homem que vivia na busca da verdade[22], não se deu por satisfeito e colocou-se no itinerário da busca pela origem do mal, voltando-se para dentro de si mesmo. Até conseguir encontrar a verdade. Graças à ajuda dos neoplatônicos, ele pode descobrir que “em absoluto o mal não existe, nem para Vós, nem para as vossas criaturas”[23]. O mal, na verdade, é a privação do bem.  O ser humano, ao se inclinar para as criaturas, que são bens inferiores, acaba se apegando e tratando-as como absolutas, inclusive a si mesmo. Por isso, ele causou sua própria morte ao querer tornar-se auto-suficiente e ao apegar-se aos bens inferiores.
            O mal é algo que não existe, mas o ser humano tem se voltado para este algo que não existe e isso faz com que ele se angustie e se questione: “Por que escolhemos o mal desde o início?”. Pode-se responder, com Agostinho: porque o ser humano veio do nada. Porém, os anjos que não decaíram vieram do nada também, mesmo assim não se entregaram à vontade errada e não se acharam auto suficientes. Então, a questão continua: “Por que o ser humano escolheu o mal desde o início?”.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
  • AGOSTINHO, Santo. Confissões e De Magistro. São Paulo: Abril Cultural. 2 ed. 1980. coleção Pensadores.
  • EVANS, G. R. Agostinho sobre o mal. São Paulo: Paulus. 1995.


[1] Conf. I, 7, 11.
[2] Cf. Conf. I, 6, 8.
[3] Conf. I, 7, 11.
[4] Na infância, Agostinho percebe as três tentações principais: a concupiscência, a ambição e a curiosidade. (Cf. Conf. I, 10)
[5] Conf. II, 3, 6.
[6] Conf. II, 4, 9.
[7] Conf. II, 8, 16.
[8] Cf. Conf. VII, 12.
[9] Se o homem o fosse iria se coincidir com Deus, pois só Deus é o bem pleno.
[10] Conf. II, 5, 10.
[11] Conf. II, 3, 5.
[12] A liberdade acontece quando há uma adequação da vontade humana à vontade divina.
[13] Conf. IV, 15, 24
[14]  EVANS, 1995, p. 61.
[15] EVANS, 1995, p. 61.
[16] Conf. VII, 16, 22.
[17] Conf. IV, 6, 11.
[18] Conf. I, 1, 1.
[19] Conf. VII, 7, 11.
[20] EVANS, 1995, p. 148.
[21] EVANS, 1995, p. 144.
[22] Cf. Conf. III, 4, 8.

CHEGADA DOS EUROPEUS: PROGRESSO OU REGRESSÃO?



            Os europeus chegaram as terras americanas no século XV, deparando-se com diferentes culturas, como as dos astecas e maias, cujas tribos tinham suas próprias constituições, leis, sistemas governamentais, religião etc. Neste sentido, este texto tem por objetivo fazer uma análise dos povos que “habitaram”[1] o solo americano e a cultura contemporânea, buscando observar o que tinham em comum ambas culturas. Tem-se por objetivo tomar para análise os povos Astecas, Maias e Incas.
            Os povos Astecas acreditavam em um mundo além do natural e suas leis eram baseadas nas leis do ser divinos que cultuavam (Teocracia), ressalta-se que eles eram monoteístas, ou seja, acreditam em um só deus – o deus Sol. Sua religião tinha dois pontífices, pois não gostavam do monopólio do um só pensamento. Os pontífices comandavam e escolheram os sacerdotes e sacerdotisas que eram responsáveis pelos sacrifícios, além disso, estes tinham que rezar ao nascer do sol, ao meio dia e ao pôr do sol. Os sacerdotes e sacerdotisas  que eram responsáveis pelos sacrifícios não podiam assumir o matrimônio, os que assumiam só ficavam responsáveis pelas orações. Todos os sacerdotes eram responsáveis por julgar e fazer com que as leis fossem cumpridas, ou seja, eram os legisladores do seu povo. Além disso, eles deveriam manter os hierógrifos, símbolos e palavras. As leis que usavam eram punitivas, mas não havia prisão, pois a liberdade era um bem que todos tinham direito.
            A lei estabelecia a pena de morte para alguns crimes, mas a pessoa deveria apenas ser morte se aceitasse por livre e espontânea vontade, quando não aceitava era exilada[2] . Dentre as leis que levavam a morte tem-se o aborto intencional e neste caso a mulher, o homem e o médico eram punidos. O adultério também era causa de morte para o casal[3]que o cometia. Nos casos de homicídio, o assassino era morto, mesmo se tivesse matado um escravo ou um animal, que não fosse para sua alimentação. Nos casos de assaltos: se seguido de morte, o ladrão seria punido com a mesma; se somente os bens fossem levados, então o ladrão deveria devolvê-los ou se tornar escravo do extorquido. O crime mais detestável entre eles era a traição e sua pena era o exílio, pois eles não achavam um traidor merecedor de morte.
            Além de tudo isso, um dos grandes costumes era a guerra, pois acreditavam que esta era desejo dos deuses. Para eles, ela gerava bens e prisioneiros para serem oferecidos em sacrifícios. Deve-se ainda destacar que eles tinham uma moeda de troca, sendo que pequenos valores se usava sementes de cacau. Eles, ainda, tinham um costume de cultuar os mortos, pois acreditavam em uma comunhão com os mesmos.
            Os Maias tinham leis semelhantes, com raras exceções, como no adultério, onde o traído é quem julgava os traidores. Também no homicídio, quando em caso voluntário aplicavam a mesma pena que os Astecas; mas sendo involuntário[4], poderia se entregar um escravo a família do morto. O furto era castigado semelhantemente aos Astecas, ou seja, deveriam ressarcir completamente ou se torna escravo temporário. Quando acontecia um estrupo, deveria se assassinar o estrupador sem nenhuma possibilidade de perdão. Eles também puniam a quem provocasse um incêndio com a morte.
            Os maias tinham como forma de escrita em primeiro lugar a pintura e em segundo a ideografia. Um fator interessante é que a pessoa poderia se apresentar para ser ofertada em sacrifício aos deuses. [5]
            Quanto aos Incas tinham leis semelhantes aos Maias e Astecas, como por exemplo: o adultério e o homicídio, ambos com a pena de morte. Uma lei interessante que tinham era a pena para a degradação de um bem público, quando uma pessoa o praticasse seria exilada. Para eles, buscarem a verdade montavam um inquérito e somente davam a pena a partir da confissão do delinqüente.
            Os Incas tinham um costume de dar um descanso semanal para seus escravos, quando estes vinham de povos que eles dominaram, o escravo deveria adorar ao seu deus Inti (deus do sol), mas poderia conservar a sua crença. Nos dias de culto havia procissões, sacrifícios, danças e jejuns.
            Pode-se observar que na cultura contemporânea encontra-se traços semelhantes aos das culturas que foram citadas acima.
            Um primeiro aspecto que se pode observar é que as suas leis são baseadas em preceitos divinos. È bem verdade que não se tem hoje uma teocracia no ocidente, mas pode-se observar que as leis receberam fortes influências da bíblia cristã e dos mandamentos de Deus contidos na mesma. A principal religião no ocidente  é o Cristianismo e este tem como entidade de maior tradição a Igreja Católica, as qual tem um pontífice que a comanda hierarquicamente, sendo auxiliado por bispos, cujo auxilio vem dos padres (sacerdotes). Pode-se compará-los as poder religioso dos astecas que tinham não só um pontífice, mas dois, os quais eram auxiliados por sacerdotes, assim como os bispos recebem auxílios de sacerdotes. Além disso, eram esses pontífices e sacerdotes que, nos povos astecas, comandavam o povo, tendo uma divisão hierárquica  semelhante aos governos de hoje que tem um representante (prefeitos, governadores, presidentes e primeiros ministros) e outras ordens de menos nível subordinadas a eles. Também do mesmo modo que os pontífices escolhiam seus sacerdotes, os representantes eleitos hoje escolhem seus secretários e ministros para regerem diferentes departamentos de seus mandatos.
            As leis que os povos indígenas citados usavam têm também grande semelhança ao contexto atual, com destaque que poucos lugares mantém a pena de morte para alguns crimes. O estrupo, homicídio, furto, incêndios provocados, degradações de bens públicos, o adultério e aborto em alguns lugares, todos são crimes na sociedade contemporânea. Tendo destaque para o homicídio que, em alguns lugares, ainda é penalizado com a pena de morte. Os outros crimes são penalizados com morte em determinados lugares, mas não pela legislação do país e sim pela justiça que povo acredita que deva ser feita[6].
            Na religião dos Maias era uma honra quando uma pessoa se oferecia em sacrifício aos deuses e sua memória seria lembrada a partir de então, como pessoa virtuosa. Pode-se observar que na Igreja Católica se venera a lembranças dos mártires que deram suas vidas professando sua fé. Além disso, a esta igreja tem uma divisão na ordem sacerdotal, onde os ministros ordenados com o primeiro e segundo nível desta ordem vivem o celibato e podem oferecer o sacrifício, já alguns do terceiro nível que não vivem o celibato, podem apenas ajudá-los. Semelhantemente a cultura dos Astecas, onde somente os sacerdotes celibatários poderiam oferecer os sacrifícios.
            São inúmeras as comparações que se é possível fazer, mas já vendo todas estas propostas acima, se pode observar que o modo cultural dos indígenas era bem avançado, como desacreditaram os europeus quando chegaram no continente. Os europeus impuseram sua cultura e sua religião, não com passividade e liberdade, mas com força e brutalidade. Pode-se, depois de toda essa análise de tais povos com a sociedade contemporânea, perguntar-se: “A chegada dos europeus nas Américas trouxe progresso ou regressão?”


[1] Sabe-se que existem ainda descendentes deles na América, porém em sua grande maioria – senão todos – aderiram ao sistema de vida europeus.
[2] O exílio era a por de todas as condenações, nenhum povo aceitaria aquela pessoa nem a mataria, pois era considerada imerecedora da morte. A morte, mesmo que seja por um crime, era de certo modo uma honra, pois a pessoa seria oferecida em sacrifício a (aos) deus (s).
[3] O (a) amante e o (a) adúltero (a).
[4] Por exemplo, atirou-se um flecha em um animal e acertou, sem intenção, uma pessoa.
[5] Se ela fizesse isto seria venerada por sua postura (semelhantemente a um mártir na Igreja Católica)
[6] Por exemplo, em alguns casos de estrupo, o criminoso é linchado pela população.

A interioridade e o Absurdo na vida


         Diante do texto “O absurdo” de Thomas Nagel, pudemos observar que, para ele, a vida é um absurdo. Neste intuito, pretendemos observar se mesmo com a presença do Deus cristão é possível que a vida seja absurda. A princípio desejamos explorar, de modo sucinto, como Nagel acredita que a vida seja absurda, principalmente quando ele fala sobre a presença de uma entidade divina. Logo após, desejamos fazer uma análise com base no pensamento de Santo Agostinho de Hipona, dando destaque a observação que este faz para a Interioridade do ser humano.
            Nagel se depara com a questão da vida como absurda e inicia seu trabalho opondo-se a algumas concepções errôneas sobre o absurdo da vida. Logo após, ele começa a expor porque a vida é absurda.
            Para ele, a vida é absurda, pelo fato de “ignoramos as dúvidas que sabemos não poderem ser apaziguadas, continuando a viver praticamente com a mesma seriedade, apenas dessas dúvidas”[1]. O absurdo seria as questões que levantamos constantemente, porém que não as solucionamos. Nagel acredita que todas as pessoas levam a vida a sério, mas quando se deparam com essas questões, deixam-nas de lado, pois veem que não tem solução. Ele intitula essas questões que nos fazemos de “Passo atrás”, pois elas são a possibilidade de nos questionarmos sobre nossas ações – poderíamos chamá-lo de reflexão, num sentido de pensar aquilo que já foi pensado.
            Portanto, para Nagel, a vida é absurda pelas inúmeras questões que nos deparamos, mas não conseguimos solucioná-las. Deve-se ressaltar ainda que o absurdo, para ele, resulta de nossa capacidade de compreender as nossas limitações humanas. Nagel vê o absurdo como constitutivo da vida, ou seja, é natural e devemos viver naturalmente. Propõe ainda abordar a vida com ironia.
            Vista a questão da vida como absurda, devemos agora estudar como Nagel vê a questão da presença de um ser superior. Nagel propõe que mesmo que estejamos contemplando e participando da glória desse ser superior (que a partir de agora iremos chamar de Deus), nossa vida continuaria absurda.
            Para ele, as pessoas que aderem a uma crença que lhes propõe servirem a Deus, contemplarem a sua glória e participar dela, se identificam suficientemente com esse Deus para se sentirem realizadas a desempenhar seu papel. Porém essas pessoas também podem colocar em questão todas essas propostas de vida e também projetos divinos, principalmente por levarem a sério essas propostas. Portanto, para ele a vida continuaria absurda, pois levariam a sério tais questões, mas mesmo assim continuariam a colocá-las em questão e não encontrarem respostas.
            Vendo essa proposta, podemos agora analisá-la a luz de partes do pensamento de Santo Agostinho de Hipona.
            A princípio observamos que Nagel não vê Deus como o Deus cristão, visto que Agostinho acredita no Deus cristão como um Deus pessoal, que vê e ouve atentamente cada pessoa, não esquecendo de suas necessidades. Para Agostinho, o Deus cristão é um Deus silencioso que sempre faz o bem, mesmo que o ser humano ainda não tenha visto sua ação como boa. Nagel somente observa um Deus no qual podemos participar de sua glória, já para a concepção agostiniana o Deus se fez humano por amor e o homem deve caminha para este Deus: “Fizeste-nos para ti e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”[2].
            Podemos observar que Nagel deixa de ver que o Deus cristão é um Deus que caminha junto do indivíduo e ainda mais se encarnou e se fez humano. Porém, pode-se levantar uma questão: mas, ainda sim pode-se dar o “passo atrás”  e a vida continuaria absurda.
            Acreditamos que para Agostinho sempre se deve dar esse passo atrás, porém ele irá se deparar com: primeiro, o problema proposto por Nagel, da não solução por si só do problema; segundo, o homem irá se deparar com o Deus cristão que está vindo em auxílio do ser  humano e está mostrando para ele, qual o caminho deve seguir.
            O Deus cristão irá encaminhar o humano rumo à verdade, que é se encontrar dentro dele. O homem irá encontrar dentro de si, esse Deus e com ele a verdade que lhe dará segurança – sem haver margem de dúvida –, de mesmo caindo na dúvida, não poderá deixar de observar que precisa afirmar a verdade:
“Não sais de ti, mas volta para dento de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem [...] quem quer que duvide da existência da verdade, possui em si mesmo, algo verdadeiro, de onde tira todo fundamento para sua dúvida. Ora todo verdadeiro, só é verdadeiro pela verdade. Não possui, pois, o direito de duvidar da existência da verdade aquele que de um modo ou outro chegou a dúvida”[3]
            Diante disso, podemos observar que com a presença de um Deus cristão, não é possível observar a vida como absurda, isto que a verdade está no homem que tem a capacidade de duvidar. Mesmo sabendo que essa verdade é inacessível humanamente falando, ela mesma se revela para o homem, a fim de que ele esteja novamente junto dela. Portanto, podemos constatar que a vida não é absurda com a presença de um Deus cristão, visto que  este absoluto se revela e coloca a verdade acessível ao homem, para que mesmo ele se deparando com a duvida, ele possa observar que existe ao menos uma verdade que lhe garante.


[1] NAGEL, Thomas. O absurdo. In: MURCHO. Desidério. Viver para que? Ensaio sobre o sentido da vida. Lisboa: Dinalivro, 2009. p. 143.
[2] AGOSTINHO, Santo. Confissões. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. I, 1. coleção pensadores.
[3] AGOSTINHO. Santo. A  verdadeira religião. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1987. XXXIX.72 e 73.